Na sessão de Terça do Escrito, deitado no Divâ do Freud foi criado o Texto da Semana.

 
                                                   Divâ do Freud

Texto:

     Desaba uma de nossas construções, pessoas soterradas, aprisionadas sob montanhas de ferro e concreto antes erguido para construção de um prédio, sonho do empreendedor que alugava salas para empresas, sonhos desmantelados pela realidade concreta dos entulhos.
    Na Inglaterra o jornal Financial Times divulga que a Alemanha quer que a Europa controle os gastos da Grécia em troca de uma ajuda de 130 bilhões de dólares.
    Em Campos do Jordão, cidade turística do interior de São Paulo foi preso um dos traficantes mais procurados pela polícia o FB levado ao Rio de Janeiro.
    FB era uma das sobras da nação do tráfico que comandava o mercado no Rio.
    A tragédia com o prédio desabado nos faz sentir comoção pela morte de pessoas comuns que só estavam trabalhando, talvez isso nos faça pensar que poderia ter sido com a gente uma vez que a situação era tão corriqueira, apenas mais um dia de trabalho, o medo de que aquilo poderia ter acontecido comigo reacende nossa paranóia em saber se o prédio em que estamos está bem seguro.
    No entanto, ao pensar no medo que causa uma possível tragédia conosco há certo alívio pela prisão do FB, como se pudéssemos acreditar um pouco mais na justiça, porque o mal está preso e isso é aliviante, por outro lado este mal era uma coisa com a qual estávamos acostumados a lidar, acostumados que nem parecia real ver na TV quase todos os dias aquelas cenas das balas de noite cruzando o céu do Rio devido batalhas de traficantes.
    Tirado o mal que tanto nos preocupava e nos ocupava o que ficou no lugar? Não sabemos ainda.
    Há uma preocupação selada, um não dito que amedronta e por enquanto é um problema dos outros lá de fora, o mal agora está em uma onda que torcemos para que não cruze o atlântico e chegue ao Brasil, ainda estamos paranóicos com a tragédia do prédio como se a qualquer momento o mal que está lá fora fosse se aproximar a ponto de termos que lidar diretamente com ele, realmente não se sabe como seremos capazes de lidar com a crise econômica que por enquanto parece ser um problema distante.
    A Grécia viu nascer em seus territórios à filosofia Aristotélica em que o homem deveria ser capaz de controlar seus impulsos através da razão, da racionalidade, no entanto a Grécia enfraquecida pela razão de não conseguir honrar suas dívidas, vê nascer no horizonte à possibilidade de um controle externo em troca de algumas migalhas de bilhões, ou seja, a cúpula da União Europeia vai emprestar o dinheiro, mas só se puderem controlar diretamente o uso desse dinheiro por desconfiar que a Grécia não seja capaz de controlar seus impulsos gastadores, isso reacende na Alemanha aquele sentimento do passado, o sentimento do absolutismo que autoriza o controle sobre o outro.
    Aqui no Brasil estamos de luto pela morte do mal que tanto nos ocupava, agora com o FB preso que já nem lembrávamos senão fosse a mídia nos recordar que existiu, porque preso ou não já não era uma ameaça inclusive foi pego sem drogas e sem arma parecia até um homem comum que vai a Campos do Jordão em busca de ares mais puros capazes de curar até tuberculose, irônico um traficante que parecia estar aposentado ir procurar refúgio em um lugar daquele, também estamos apavorados pela tragédia do prédio que nos coloca diante da ameaça do mal súbito reacendendo a nossa paranoia de que o mal pode chegar no momento mais corriqueiro de nossas vidas como quando foi encontrado no dia seguinte da tragédia o corpo da mulher que estava falando com o marido por MSN no momento em que o prédio desabou.
    De luto e temerosos pela ameaça que vem de fora, talvez agora queiramos nos preocupar mais com a copa, em fazer uma festa grandiosa capaz de acalmar os ânimos da crise na Europa. Não é bom ameaçarmos a crise com as balas de fuzil do nosso tráfico e é importante que averiguemos mais de duas vezes se nossas construções estão bem sólidas para que não recaia sobre nossas cabeças o absolutismo dos outros povos.
    Caso a final da copa dê Brasil e Alemanha o que será? Difícil essa coisa de querer vencer e ter que agradar.

Fontes Consultadas: 
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/01/fb-nao-tinha-drogas-ou-armas-durante-prisao-diz-policia.html
 
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/01/120128_grecia_ft_dg.shtml

Por William Souza
 

Sessão de Terça do Escrito: A Dor de Barriga de D. Pedro I

                                        D. Pedro I e a coroa imperial do Brasil. Artista: Henrique
                                                      José da Silva.

Texto: O jornalista e escritor Laurentino Gomes, escreveu em seu livro, 1822, que D. Pedro I à véspera de proclamar a independência do Brasil no dia sete de setembro de 1822, sofria de fortes dores de barriga, dessas de ter que ir no mato.
    Como disse o coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, a intervalos regulares D. Pedro se via obrigado a apear do animal que o transportava para “prover-se” no denso matagal que cobria as margens da estrada, citação de Laurentino Gomes em seu livro, 1822.
    As causas da dor de barriga o autor coloca no livro que são desconhecidas, porém há suposições de que pode ter sido alimento malconservado ingerido no dia seis de setembro daquele ano em Santos ou água contaminada das bicas e chafarizes que abasteciam as tropas de mula na serra do Mar.
    D. Pedro de Alcântara nasceu em Queluz, Portugal, em doze de outubro de 1798, seu pai era D. João VI rei de Portugal, Brasil e Algarves e sua mãe era a Dona Carlota Joaquina de Bourbon, infanta da Espanha.
    D. Pedro era o quarto filho o segundo menino de seus pais, não era esperado que um dia viesse a se tornar rei. O falecimento de seu irmão mais velho, D. Antônio de Bragança em 1801, tornou-o herdeiro de seu pai.
    O príncipe passou a infância no Palácio de Queluz, onde nascera e convivia com a avó paterna a Dona. Maria I, rainha de Portugal e Algarves que vivia fora da casinha, completamente insana, sua mãe não lhe dava muita atenção, pois tinha que cuidar do filho mais novo D. Miguel. Seu pai o estimava muito, considerando-o o predileto, mas por ser reservado e deprimido, mantinha pouco contato com seu filho herdeiro.
    No ano de 1808, D. João VI preocupado com os acontecimentos na Europa, decidiu enviar ao Brasil seu filho herdeiro o D. Pedro na tentativa de impedir que a mais valiosa colônia do Império Português sofresse o mesmo destino das colônias espanholas, no entanto, como as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal, o rei mudou de ideia e decidiu fugir para a colônia e levar todo mundo, a família e boa parte da nobreza portuguesa.
    No Brasil D. Pedro chegou com apenas dez anos de idade, viveu no Palácio da Quinta da Boa Vista, São Cristóvão RJ, junto com o pai e o irmão e também morou na Fazenda de Santa Cruz e no Paço Imperial.
D. Pedro era muito parecido com seu irmão D. Miguel, em temperamento e afeições, viviam brigando e se amando. Suas principais atividades até os dezesseis anos de idade foram exercícios físicos, equitação e marcenaria, adorava cavalos, aprendeu a montar, encilhar e até ferrar.
    Na juventude gostava de ir às tavernas do Rio de Janeiro, namorador como nunca, mesmo depois de adulto e casado com Dona Leopoldina corria atrás de um rabo de saia e continuava a frequentar as tavernas, seu temperamento impulsivo era o que caracterizava sua personalidade.
    No ano de 1820 começou uma revolução em Lisboa dos constitucionalistas que em assembleia queriam formar uma constituição, eleger seus participantes e tal, com isso D. João VI viu que era melhor voltar a Portugal por que senão seu poder poderia ficar enfraquecido dependendo do que os revolucionários portugueses colocassem lá na constituição, foi o que fez, no ano seguinte, 1821, D. João VI parte para Portugal deixando em seu lugar D. Pedro que com vinte e três anos de idade ficou responsável por defender os interesses de Portugal, mais precisamente do pai.
É possível imaginar D. Pedro muito criança correndo pelos corredores do Palácio de Queluz, rodeado de empregados, com aquela despreocupação natural de criança, aos três anos de idade perde o irmão mais velho, se tornando o herdeiro de um reinado, neste momento vivia o luto por seu irmão ter ido “embora” e a euforia de um dia se tornar rei, ocupar o lugar do seu pai, deveria então ser bem visto pelos olhos do pai só que este era deprimido, devia ter aquele olhar baixo e melancólico, se D. Pedrito, o D. Pedro criança, corresse para o colo da mãe afim de uma trégua de todo peso que deveria ser a responsabilidade que herdou com a morte de seu irmão, encontrava uma mãe muito ocupada com os cuidados do filho mais novo, restava apenas ficar com a senhora louca, sua avó paterna D. Maria I.
Possivelmente com a morte de D. Antônio a atenção de seus pais, principalmente do rei foi transferida para D. Pedro, no sentido de dar-lhe a melhor e mais reta educação digna de um dia ocupar o cargo de rei e este dia chegou ainda quando seu pai estava vivo.
    Imagine a cabeça de uma pessoa, ainda uma criança, que vê seu irmão mais velho morto, com isso seus pais começam a tratá-lo de forma diferente, depositando nele uma esperança ou expectativa a qual pouco ele ainda conseguia entender, mas possivelmente conseguia sentir o peso de tal expectativa, no caso ele não tinha escolhas, talvez até ficasse feliz com a ideia de um dia ser rei, mas como ficar feliz sem culpa se para isso o irmão teve que morrer e a única convivência possível de alguém de seus familiares era uma senhora louca que o não entenderia, pois entendia menos ainda dela mesma. Havia ainda o irmão mais novo, talvez para a cabecinha de D. Pedrito se papai não gostar de mim poderei ser substituído, papai faz comigo o que aconteceu com meu irmão mais velho e essa história de ser rei fica para D. Miguel.
    Em 1821 D. João VI parte para Portugal e deixa D. Pedro no seu lugar para assumir a liderança da colônia, era a deixa que D. Pedro precisava para mostrar a seu pai que valeu a pena ter investido nele e que não decepcionaria, porém sem a figura máxima de autoridade presente a colônia se rebelou, os confrontos entre brasileiros e portugueses se multiplicaram, muitos mortos de ambos os lados, seu pai mandava de Portugal reforços na tentativa de abafar os revoltosos. D. Pedro que passou toda sua adolescência no Brasil deveria nutrir um sentimento de afeição pelo povo daqui maior que os interesses políticos de seu pai.
Quando saiu de viagem rumo a São Paulo montado em uma mula por uma estrada de terra esburacada, entre sair de Santos no dia seis e estar às margens do rio Ipiranga no dia sete, provavelmente sentia que aquele era um período decisivo de sua vida, a dor de barriga talvez significasse a angustia por ter de se separar do D. Pedro obediente ao pai e aos interesses políticos da corte portuguesa para se tornar D. Pedro I Rei do Brasil, foi quando proclamou a independência do Brasil e a angustia de separação deu lugar ao brio, sentimento de conquista. 
 
Fontes consultadas:
- Gomes, L. 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Nova Fronteira; Rio de Janeiro, 2010.
- Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_I_do_Brasil#cite_note-LUSTOSA.2C_Isabel_2007.2C_p.38-3

Por William Souza

Conto de um Namorico da Infância


            

         Quando eu era criança tinha uma namoradinha, ela não sabia que namorávamos, no entanto éramos perdidamente apaixonados um pelo outro.
            Como era bom ser apaixonado pela minha namoradinha, não importava o que fizesse, era linda, se sorria era como o sol que brilha intensamente, se me olhava era como as estrelas cintilantes, como era intenso a nossa paixão, se conversava comigo embalava meus sonhos em suas palavras, se conversava com outro me deixava ardendo de raiva.
            Eu e minha namoradinha éramos colegas do pré, tínhamos apenas seis anos de idade, na escola ficávamos juntos na maior parte do tempo, na hora do recreio então ensaiávamos passos de casamento pelo pátio do colégio, era paixão para a vida toda, na hora da fila da merenda o lugar dela estava reservado na minha frente, não importava o que dissessem os reclamões o lugar dela era garantido, brincava de correr com meus coleguinhas e ela brincava de roda com as amiguinhas, mesmo que ela fosse ao banheiro e eu não podia entrar porque era só de meninas ela estava lá, mesmo que o sinal tocasse anunciando o término das aulas e cada um fosse para suas casas, ela estava lá. Ela sempre estava lá.
            Às vezes dizia a ela o quanto eu estava apaixonado, o quanto gostava de estar apaixonado e o quanto gostava dela e que para sempre iríamos ficar juntos, outras vezes segurava na mão dela, uma mãozinha tão delicada e linda que nem sabia ao certo como segurar e de mãos dadas íamos e indo a levava para minha casa, era uma fazenda bem bonita nos vales de minas, lá a gente andava a cavalo, ela era muito arteira porque sempre se metia em enrascadas e eu sempre estava lá para salvá-la e cada vez que isso acontecia se apaixonava mais por mim, eu era o herói cavaleiro que leva a princesa para o castelo e a mentem salva.
            Quando não queria ficar na fazenda a gente viajava, não tinha destino à gente não precisava chegar, entrávamos no meu caminhão e ia, sim, eu tinha um caminhão, era bem grande de cor azul escuro, às vezes levava os cavalos na carroceria, às vezes não, pela estrada a gente sorria imensamente felizes por estar juntos, eu até ensinava ela a dirigir, ela gostava. Ela parecia gostar de tudo que eu fizesse, pois tudo que fazia era amar ela.
            Como eu gostava da minha namoradinha, como ela era linda, cabelos longos e pretos, quando a vi pela primeira vez usava um vestidinho que ia até o joelho e era um joelhinho lindo, assim que a vi meu coração saltitou em espanto, não sabia que a natureza era capaz de fazer alguém tão linda, meiga e brava, ninguém folgava com ela, principalmente os meninos eu achava isso ótimo, me poupava dor de cabeça, um dia na pracinha a gente estava conversando sentado um do lado do outro daí veio um menino de bicicleta colega da escola e ficou conversando com ela, que raiva que me deu, que ciúme adoidado, porque tinha que ser simpática e conversar com o menino puxa vida?
            A gente crescia junto e de mãos dadas, certo dia a vida quis que soltássemos as mãos e nunca mais vi minha namoradinha, que dor que me deu, jurei nunca mais me apaixonar, no meu coração ficou um vazio, ó minha namoradinha, volte, que é este o seu lugar.

(William Souza).